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Novo presidente do BID: outro golpe de Trump contra o multilateralismo na América Latina

Com o americano Mauricio Claver-Carone a cargo do Banco Interamericano de Desenvolvimento, Donald Trump consolida sua influência na gestão econômica da América Latina.

Miguel González Palacios
23 September 2020
Assentamento de Rincón del Lago, em Soacha, Colômbia
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Andrés Bernal, democraciaAbierta

O americano Mauricio Claver-Carone é o novo presidente do Banco Interamericano de Desenvolvimento (BID). Sua eleição em 12 de setembro gerou polêmica e rejeição por dois motivos: primeiro, porque desde a criação do banco esse cargo é ocupado por um latino-americano e, segundo, porque ocorre apenas dois meses antes das eleições presidenciais nos Estados Unidos, seu principal acionista .

Por essa razão, um grupo de países liderados pela Argentina tentou, sem sucesso, adiar a eleição do presidente do BID para o próximo ano, na esperança de que um governo democrata reconsiderasse a candidatura de Claver-Carone.

Com um homem de sua confiança no comando de um dos maiores bancos multilaterais do mundo, Donald Trump garante a continuidade de sua agenda de política externa, mesmo que não seja reeleito, e consolida sua influência na gestão econômica da América Latina e o Caribe, que enfrenta cenários difíceis diante da devastação da Covid-19.

A nomeação de Claver-Carone é vista por muitos como uma jogada de Trump para garantir os votos necessários para sua reeleição na Florida

O multilateralismo segundo Donald Trump

A presidência do BID é um dos cargos de maior influência na região, pois, além de formular propostas de financiamento à diretoria, mantém contato regular com governos, empresas e outros organismos multilaterais. Por isso, apesar de suas políticas isolacionistas e de seu discurso antagônico aos organismos internacionais, o governo de Trump mobilizou todos os seus recursos e influência para garantir a posição a uma figura alinhada aos seus interesses hemisféricos.

Nascido na Flórida, filho de pais cubanos e espanhóis, Claver-Carone é reconhecido na opinião pública, na academia e nos lobbies de Washington como uma das vozes mais radicais contra os regimes de Cuba e da Venezuela. Sua nomeação para o BID é vista por muitos como uma jogada de Trump para garantir os votos necessários para sua reeleição naquele Estado, onde reside um número significativo de exilados desses dois países.

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Mauricio Claver-Carone | Asamblea Nacional del Ecuador is licensed under CC BY-SA 2.0

Claver-Carone ingressou no governo Trump em 2017 como assessor do Departamento do Tesouro, cargo de onde ocupou a liderança executiva dos Estados Unidos no Fundo Monetário Internacional (FMI). A partir daí, Claver-Carone liderou o desembolso de um empréstimo de resgate para a Argentina de mais de US$ 55 bilhões, o maior da história da organização, apesar da oposição de parceiros europeus e da diretora-gerente do FMI. Como ele mesmo reconheceu, essa foi uma medida geopolítica para apoiar o governo de Mauricio Macri, um aliado importante na cruzada dos Estados Unidos contra o regime de Nicolás Maduro na Venezuela.

Como assessor do Conselho de Segurança Nacional da Casa Branca, Claver-Carone está na vanguarda do endurecimento das medidas contra Caracas e Havana, bem como da chamada 'nova Doutrina Monroe', junto com o senador republicano Marco Rubio, para conter a influência da Rússia e da China no região. Por isso, sua candidatura à presidência do BID foi apoiada desde cedo pelos mais importantes aliados do governo Trump, como Colômbia, Brasil e Israel.

Como parte de sua campanha, Claver-Carone prometeu “aprofundar os laços ou sonhos do pan-americanismo” com reformas para modernizar o órgão após os 15 anos da presidência do colombiano Luis Alberto Moreno. Entre elas está a redução da participação, em sua opinião desproporcional, da Argentina na organização, já que este país controla um terço dos cargos mais importantes do BID apesar de possuir apenas 11% de suas ações.

A importância estratégica do BID é hoje maior do que nunca à luz da pandemia de Covid-19, que pode implicar em um retrocesso de décadas de trabalho para o desenvolvimento econômico e a redução da pobreza na região

Claver-Carone também prometeu trabalhar para reduzir a influência da China no Banco e contrabalançar a política agressiva de empréstimos e investimento em infraestrutura do gigante asiático na região. Da mesma forma, desde seu cargo poderá influir no financiamento de projetos de gestão de fluxos migratórios, tema que foi definido como prioritário pela organização e que é muito sensível para a opinião pública de seu país.

O BID e o futuro após a pandemia

A importância estratégica do BID é hoje maior do que nunca à luz das consequências da pandemia de Covid-19, que pode implicar em um retrocesso de décadas de trabalho para o desenvolvimento econômico e a redução da pobreza na América Latina e no Caribe. No entanto, a chegada de uma pessoa com uma agenda abertamente política, como é o caso de Claver-Carone, à presidência do banco, pode representar um obstáculo na recuperação rápida e eficaz da pior crise da história recente da América Latina, acentuando ainda mais as enormes desigualdades econômicas e sociais já existentes na região.

Apesar de ser o único candidato que chegou ao final da disputa, um terço dos membros do banco preferiu abster-se em vez de apoiar Claver-Carone, e até mesmo um grupo tentou evitar o quorum necessário para realizar a votação. Este é um precedente para a polarização que pode ocorrer dentro do órgão e que pode dificultar a tomada de decisões, já que entre os críticos do novo presidente estão países com considerável peso regional, como o México e a Argentina.

Além disso, o BID pode ficar paralisado caso vire um novo palco na guerra comercial entre os Estados Unidos e a China, tendo em vista que para vetar qualquer decisão Washington precisaria do apoio de Pequim, o que é improvável. E a eventual vitória de Joe Biden e uma maioria democrata no Congresso pode gerar tensões internas com Claver-Carone, criando dificuldades adicionais para o funcionamento do BID, como o desembolso de recursos.

De qualquer forma, a eleição de Claver-Carone evidencia a ambiguidade e as motivações eleitorais da política externa de Trump. Por um lado, ele tenta reduzir ou acabar com a participação dos Estados Unidos em órgãos internacionais, como no caso da OMS e mesmo da OTAN. Mas por outro, mostra-se empenhado em conseguir maior controle sobre eles, como no caso da OEA e agora também do BID.

É irresponsável trazer instabilidade e incerteza a uma região que carrega grande descontentamento social – como vimos nos últimos protestos, alguns deles muito violentos, em diversos países – e que tem sido especialmente punida pela pandemia do coronavírus. Será necessário trabalhar muito para construir um consenso para que a presidência de Claver-Carone não seja excessivamente destrutiva para o futuro de uma instituição financeira multilateral que será mais necessária do que nunca nos próximos anos.

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