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'Vão me matar e não quero que me matem': ativista colombiana descreve violência contra líderes sociais

Em 28 de julho, Yaneth Mosquera foi vítima de tentativa de homicídio. A líder social do Cauca contou sua história ao democraciaAbierta.

Juanita Rico
31 July 2020
Yaneth Mosquera

Este depoimento é o primeiro de uma série sobre líderes sociais na Colômbia, que procura devolver-lhes a voz, contar suas histórias, o que fazem e como sobrevivem nos territórios assolados pela violência.

Mapa del Cauca en Colombia.
Mapa del departamento del Cauca en Colombia. | Creative Commons.

O Cauca, localizado no sudoeste da Colômbia, é o departamento com o maior número de assassinatos de líderes sociais na Colômbia. Até 15 de junho de 2020, 63 líderes foram mortos, de acordo com a Somos Defensores.

Patía, um vale que esteve submerso por mais de 3,5 bilhões de anos e foi atingido primeiro pelas FARC e depois pelos paramilitares, é o lar de Mosquera. Este é o seu depoimento:

Eu nasci em El Juncal. Lá cresci e descobri a violência: aos 14 e 15 anos, quando tive minhas duas filhas mais velhas. Ambas são fruto de estupros por aqueles que eu conhecia como "chusmeros", que não eram nada menos que guerrilheiros membros de uma ou de outra força armada ilegal que controlava o território, e que faziam o que queriam com os moradores.

Depois eu tive meu terceiro filho. Ele foi fruto de uma tentativa de viver o amor, mas eu não tinha a possibilidade ou a resistência. Venho de uma família muito pobre e, por ignorância, nunca nos ensinaram como a questão psicológica pode afetar um ser humano. Meu medo foi despertado e eu não consegui viver com o pai do meu filho. Assim que ele nasceu eu fugi. Fomos para o Yumbo e até hoje eu sou solteira.

Hoje tenho 50 anos. Minhas filhas já são casadas e tenho dois netos: um tem 7 anos e o outro 1 ano e meio de idade. Meu filho tem 23 anos e trabalha para o Municipal de Popayán.

'A fogo e ferro'

Nós éramos e somos camponeses. Tenho sorte de ter minha mãe e meu pai vivos. Ele tem 78 anos e ela 75. Eles se separaram há 35 anos, mas vivíamos perto e nos apoiamos uns aos outros. Eu tenho nove irmãos e irmãs, oito vivos. O mais velho foi morto pelos paramilitares. Também tenho dois meio-irmãos, filhos da nova vida do meu pai.

Minha família era uma das mais humildes do vilarejo. Eu não estudei porque meu pai pensava que as filhas existiam para dar à luz. É por isso que eu ia à escola às escondidas. Sabe a expressão a fogo e ferro? Foi assim que eu aprendi. Quando meu pai me mandada para a loja, eu ia para a escola e depois ficava esperando a surra.

Contar essas histórias me entristece, mas elas me fizeram crescer como pessoa.

Desalojados e desabrigados

À medida que crescemos, os paramilitares ameaçaram todo o vilarejo e tivemos que ir embora. Chegamos a Popayán em 1999 e eu, com meus três filhos, senti na pele o que significava ir do campo para a cidade sem nenhum outro conhecimento que não fosse colher e viver da terra.

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Popayán | descubriendoelmundo

Minha avó materna costumava dizer que Popayán é terra grande; quem tem dinheiro come e quem não tem, morre de fome, e é verdade. Quando chegamos, não tínhamos onde morar, dormíamos sobre plástico enquanto eu buscava uma forma de viver. A esperança chegou quando, junto com os outros milhares de desalojados, descobrimos o Pubús, no bairro de Munique da Comuna 7, em Popayán.

Pubús é uma área protegida. É um pântano, então as mais de 1.000 famílias que ali se estabeleceram o fizeram na forma de ocupação. Foi aí que nasceu meu trabalho como líder social. Iniciamos o debate com a polícia e as autoridades até que, após muitos confrontos, conseguimos chegar a um acordo para permanecer ali.

Junto com as outras famílias desalojadas, criamos a Corporación Destechados ProDesarrollo Comunitario (Corporação Sem Teto ProDesenvolvimento Comunitário), que luta por melhores condições de vida. Eu, em particular, concentrei todos os meus esforços na liderança de projetos ambientais e de desenvolvimento comunitário para mais de 1.500 famílias. Foi por isso que recebi o Prêmio Mulher Cafam em 2007.

Tudo o que restou foi meu orgulho porque o prêmio de 16 milhões de pesos (cerca de R$ 23 mil) eu dei para às mulheres carentes e idosas no vale e os 2.500 subsídios habitacionais que o então governo me prometeu nunca se concretizaram.

Depois do prêmio, as ameaças

Mosquera não só liderou os esforços bem-sucedidos para despoluir o riacho, mas também criou hortas orgânicas de couve, cebola, beterraba e outros produtos. A cada 45 dias, os moradores trocam os alimentos que cultivam com outras população de Popayán que lhes dão arroz, sabão e roupas.

Graças a seus esforços, eles conseguiram adquirir um lote no qual 3.088 famílias desalojadas foram realocadas e que hoje se chama Ciudad Futuro Las Guacas.

Depois disso, ela foi aos Estados Unidos a convite de Hillary Clinton durante o governo de Barack Obama, chegando a ir à Casa Branca. Ela esteve no país por seis meses, onde fez um curso de técnico ambiental na Universidade de Miami.

Após esse intervalo, ela voltou à Colômbia para continuar trabalhando para sua comunidade e enfrentou as primeiras ameaças.

Ocorrência diária para os líderes sociais

Quando voltei de Miami, minha filha mais velha foi sequestrada e eu tive que resgatá-la. Continuei trabalhando no Cauca, para apoiar minha comunidade e em 2014, sete anos após o prêmio, fui escolhida pelo Ministério do Interior para fazer parte do espaço nacional para consulta prévia como representante das comunidades Afro, Raizal e Palenquera (grupos étnicos e linguísticos da região).

Desde aquele momento, tenho lutado pelos direitos das comunidades negras, a comunidade que perdeu mais pessoas, mais vidas durante o conflito. O silêncio e o esquecimento permitem que nos matem há anos. E hoje continuam nos enxergando como pobres.

Eu tive um grande susto em 2019. Aqui no Cauca, estão querendo construir a rodovia dupla Santander de Qulichao-Popayán. Eu briguei para que Governo Nacional fizesse uma consulta prévia, porque a estrada deslocará muitas comunidades ancestrais naquele território e contaminará as fontes de água. Se não fizermos nada por essas comunidades, elas acabarão onde as comunidades negras desalojadas sempre acabam: em ocupações na beira de estradas .

Nesse momento, fui identificada como alvo militar e me deram 24 horas para deixar o país senão eles me matariam. Eu não saí, mas comecei a receber, dia sim, dia não, ameaças de morte por escrito.

Amenazas a lideres sociales
Uma das ameaças que Yaneth e outro líder social receberam em 2019 | Arquivo pessoal

Você acha que alguém fez alguma coisa? Já apresentei mais de 1.000 reclamações ao Ministério Público e nada. Se eles pelo menos me dissessem, "Olha esse panfleto veio de tal lugar", já ajudaria. Mas não, nada.

O governo, como aquela senhora em Putumayo que disse que se mata mais por celulares do que matam líderes sociais, complica as coisas. Vi até mesmo notícias que dizem que nós, líderes afro e indígenas, ajudamos os dissidentes das FARC a hostilizar o exército, e isso não é verdade.

O que isso faz é colocar uma lápide sobre nós.

Atentado e isolamento total

Na terça-feira, 28 de julho às 3h, um explosivo foi colocado na casa da filha mais velha de Yaneth, com a qual ela vivia. Ninguém ficou ferido, mas Yaneth teve que fugir o mais rápido possível.

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Olha, eu já tinha um esquema de segurança com um veículo, que foi explodido no ataque, e dois guarda-costas. Mas esses guarda-costas só recebem comissão por sete dias e eu trabalho no território 31 dias por mês. Então eu levo eles comigo e eles dormem onde eu durmo e comem o que eu como. Eles fazem isso porque querem me ajudar. O novo esquema esquema de segurança inclui um veículo blindado, mas por três meses.

Eu me sinto só. Meus amigos já nem me cumprimentam na rua porque têm medo. Não posso mais ver minhas filhas por sua segurança. Agora eu durmo um dia em um lugar, outro em outro, às vezes nem durmo.

Eu digo isso: desde que o Acordo de Paz foi assinado, a situação piorou. Usaram o acordo como um discurso para enriquecer e o governo atual não faz nada. Existem alguns mecanismos legais que poderiam nos ajudar, mas eles não os implementam. Isso também levou à chegada de muitas ONGs que nada fazem. Há muitas ONGs aqui que sempre ganham todas as licitações e não fazem nada.

Quero dizer o seguinte: vão me matar e eu não quero que me matem..

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Yaneth Mosquera trabalha há mais de 20 anos para as comunidades desalojadas Afro, Raizal e Palenquera no Cauca. Há seis meses, ela pesava 112 quilos. Hoje, pesa 65. No ano passado, ela foi diagnosticada com câncer de tiróide, depois de mama e agora de estômago. Ela vive de seus ganhos diários. Apesar de qualificar para indenização como vítima do conflito, ela a recusou porque acredita que nada pode reparar o que as vítimas sofrem. Ela pede apenas uma coisa: um território onde ela e sua comunidade possam viver da terra e ser o que sempre foram: camponeses.

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